Por redação

Em abril, é celebrado o Dia Mundial de Conscientização do Autismo e nós faremos uma série de reportagens e entrevistas falando sobre o tema. No Brasil, estima-se que pelo menos 2 milhões de pessoas tenham autismo. Os números, no entanto, podem ser muito maiores. 

“Digo como se fosse hoje. 17 de fevereiro de 2017. Chovia. A sensação que eu tinha era de que aquela chuva era um ácido. Que as lágrimas me queimavam. Como se tivessem colocado uma bomba dentro de mim e me explodido”. A fala emocionada de Bárbara Alves soa como alguém em luto. Na verdade, muitas famílias dizem que  o impacto é praticamente o mesmo: como a morte.

Há pouco mais de um ano, em Pelotas (RS), ela e o marido, Leonardo Blanco,  receberam a notícia derradeira da qual suspeitavam havia um tempo: o filho Pedro Alves Blanco, então com três anos, foi diagnosticado com autismo severo. Atualmente, a partir do DSM-5 (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais), o autismo é considerado um Transtorno de Desenvolvimento, em que a pessoa apresenta déficits, principalmente na interação, comunicação social,  comportamentos repetitivos e áreas de interesse restritas, além de déficits no processamento sensorial.

Outra vida, outro futuro

Para eles, e para a maioria das pessoas que sequer sabem o que é o transtorno, isso não queria dizer muita coisa, ou praticamente nada. Com o impacto, iam embora os planos e sonhos de ver o filho ter a vida de qualquer outra criança de sua idade. O futuro, embora imprevisível, já havia reservado outra história.

“A gente sabia que havia algo de diferente nele. E a escola chegou pra nós com a possibilidade de autismo”, recorda o pai. Normalmente, o processo de desconfiança até o diagnóstico fechado demora um tempo. O do Pedro, por exemplo, entre a suspeita e o laudo se passaram seis meses de idas e vindas em busca do atendimento correto. “É um processo bem longo. A pediatra te manda pra neuropediatra. A neuro te manda pra fonoaudióloga, que leva um tempo pra fazer uma avaliação. Depois, se retorna à neuropediatra, que, finalmente, vai te dar o diagnóstico”, conta.

O Centro de Autismo de Pelotas

Laudo na mão e ansiedade na cabeça, partiram para o Centro de Atenção ao Autista de Pelotas, um dos poucos espaços públicos nesses moldes no Brasil. Foi onde começaram a entender o que de fato era o autismo e receberam todo o acolhimento necessário para o Pedro e para eles. Dos primeiros atendimentos até agora, segundo Bárbara, seu filho já é outro menino, que hoje está com 4 anos. Mesmo com atraso na fala e seletividade alimentar, as terapias são essências na evolução dele. Desde 2014 na cidade, o centro recentemente mudou de lugar, foi reformado e agora terá condições de aumentar o número de crianças atendidas.

Atualmente, são 302 alunos matriculados, de faixas etárias que variam entre 1 e 35 anos. Existe uma demanda de pelos menos outros 300 à espera de vaga. Estudantes de outra instituição de ensino participam de atividades no local em turno inverso ao da escola.

Novo centro. Foto: Gustavo Mansur/Diário Popular

 

Cada caso de TEA tem suas particularidades, que são identificadas logo que o aluno ingressa na instituição, possibilitando um atendimento adequado e personalizado de acordo com suas necessidades, afirma a diretora, Débora Jacks.

A equipe de atendimento conta com professores qualificados para trabalhar com educação especial, psicólogos, fonoaudiólogos e orientadores educacionais. O quadro de funcionários será ampliado para atender o número de alunos, que deve dobrar até o final do ano.

Sala sensorial

Uma das novidades do novo prédio é a sala terapêutica de integração sensorial, um espaço de estímulo aos sentidos ideal para o tratamento e socialização. O projeto está sendo desenvolvido por um dos professores do centro. Uma melhor integração sensorial influencia na socialização do indivíduo com TEA, melhorando sua capacidade de aprendizado e interação.

O que é autismo?

Segundo o Centro de Controle de Doenças  - CDC, dos Estados Unidos, uma em cada 45 crianças é diagnosticada com autismo atualmente, sendo mais comum em meninos do que em meninas.

No Brasil, faltam estudos estatísticos que deem dados exatos. A pesquisa existente é a de autoria do psiquiatra Marcos Tomanik Mercadante. No estudo, ele aponta que o número de pessoas com TEA no Brasil aproxima-se de 2 milhões. Mas as estimativas são bem maiores do que essa. O psiquiatra Estevão Valdasz, coordenador do Programa de Transtornos do Espectro do Autismo do Instituto de Psiquiatria do HC de São Paulo, acredita que 90% dos brasileiros com TEA  ainda não foram diagnosticados, levando a crer que os índices podem ser bem mais elevados. O autismo é uma questão mundial, não evidenciado de forma incidente em uma raça específica ou condição social.

Foi inicialmente nomeado por Bleuler (1910), referindo-se pela primeira vez ao termo “autismo”. Foi apresentado de forma mais detalhada por Kanner, em 1943, a partir do estudo de 11 crianças com marcadas alterações na interação social, comportamentos e comunicação e, em 1944, por Asperger, em sua tese de doutorado, apresentando diferenças no que foi definido por Kanner, principalmente em relação a competências mais elevadas, tanto linguísticas quanto cognitivas, a chamada Síndrome de Asperger.

Neste contexto, o termo “autismo” indica a característica mais importante do conjunto de sintomas apresentados pelas crianças, a inércia social.

Apesar dos esforços empreendidos e dos rigorosos estudos realizados por Kanner e Asperger, entretanto, o autismo não foi enfaticamente considerado por muitos anos, mantendo-se como conceito difuso e genérico.

Somente na década de 1970 que os estudos são retomados, principalmente por Lorna Wing, possibilitando a ampliação de conhecimentos e  condições para diagnóstico, a partir do que foi nomeado como a Tríade de Wing.

Segundo a ASA, o autismo é uma inadequacidade no desenvolvimento que se manifesta de maneira grave por toda a vida. Acomete cerca de 20 entre cada dez mil nascidos e é quatro vezes mais comum mulheres do que em homens. De acordo com a associação, até o momento não foram comprovadas causas psicológicas, originárias do meio da criança, que possam causar o Transtorno.

De acordo com o DSM 5 - Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais, há a inserção das pessoas em um espectro, o Espectro do transtorno Autista, que indica uma série de condições, comportamentos, sintomas, que variam de pessoa para pessoa.    

 Anteriormente, o autismo estava incluído nos Transtornos Globais de Desenvolvimento, que envolviam outras classificações, síndrome de Asperger, autismo infantil, por exemplo.

Hoje, na inclusão no espectro, são apresentados níveis a partir do apoio que necessitam: algum apoio, apoio mediano e muito apoio. Também  são designados como leve, moderado ou severo, em que o marcador de “gravidade” baseia-se no grau de comprometimento do distúrbio:

Nível 1 – grau leve, necessita de algum apoio

Nível 2 – grau moderado, necessita de apoio mediano

Nível 3 – grau severo, necessita de muito apoio

Os apoios são estabelecidos de acordo com as avaliações e os comprometimentos apresentados, tais como necessidade de fonoaudióloga, se apresenta comprometimentos na fala, terapeuta sensorial, psicopedagoga, entre outros, conforme o que é apresentado por cada criança, afirma a professora Rita Cóssio Rodriquez, da Universidade Federal de Pelotas, pós-doutora em educação especial pela Universidade do Minho (Portugal), coordenadora do Núcleo de Acessibilidade e Inclusão da UFPel (NAI) e coordenadora nacional do Congresso Luso-Brasileiro de TEA e Educação Inclusiva (Conlubra)

“Neste sentido, não temos como analisar de forma geral e, sim, individualizada, tanto para o diagnóstico, que é clínico, envolvendo multiprofissionais, quanto para definir as propostas de intervenção, que vão ser estabelecidas de acordo com as singularidades”.

Já para a Classificação Estatística Internacional de Doenças e problemas relacionados à Saúde (CID), em sua 10ª edição, CID-10, utilizado pelo sistema de saúde no Brasil, o autismo se insere  como Transtorno Global do Desenvolvimento, categorizado da seguinte forma:

  • Autismo infantil (F84-0)
  • Autismo Atípico (F84-1)
  • Síndrome de Rett (F84-2)
  • Síndrome de Asperger (F84-5)
  • Transtorno desintegrativo da infância (F84-3)
  • Transtorno geral do desenvolvimento não especificado (F84-9)

"Importante salientar que a Síndrome de Rett não está inserida no Transtorno do Espectro Autista, inclusive no DSM-5, por apresentar características muito próprias", destaca Rita. 

Assista ao vídeo da conversa que tivemos com eles. O vídeo é bem simples, gravado de forma descontraída pelo celular, uma vez que o Pedrinho teve muito interesse pela nossa câmera profissional.

 

Com informações do Diário Popular e Saber Incluir
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